Gestão financeira de clínicas: por que seu cliente da saúde precisa de mais do que um prontuário eletrônico

Gestão financeira de clínicas: por que seu cliente da saúde precisa de mais do que um prontuário eletrônico

O setor de saúde movimenta cerca de 9,5% do PIB brasileiro, mas também está entre os segmentos que mais enfrentam dificuldades para transformar atendimentos em resultados financeiros claros. Em muitas clínicas, o prontuário eletrônico organiza consultas, exames e o histórico dos pacientes, enquanto o controle do faturamento, dos repasses médicos, dos convênios e do fluxo de caixa continua descentralizado. 

Basta chegar ao fim do mês para a dúvida aparecer: a clínica atendeu bem, a agenda esteve cheia, mas afinal, quanto realmente lucrou? A tese deste artigo é simples: prontuário eletrônico organiza o paciente, não o dinheiro. Ele resolve a operação clínica, mas não a gestão financeira. É justamente nessa lacuna que está um dos maiores desafios e também uma oportunidade para contabilidades especializadas em clínicas, consultórios e operadoras de saúde. Entender por que um sistema não substitui o outro é o que diferencia uma contabilidade que apenas cumpre obrigações daquela que atua como parceira estratégica do negócio.

Prontuário eletrônico e software de gestão: a confusão que custa caro

A maior parte dos gestores de clínica e, honestamente, boa parte dos contadores que ainda não se especializaram no setor trata “sistema de gestão da clínica” como uma coisa só. Não é. São pelo menos três sistemas distintos, com propósitos diferentes, e a confusão entre eles é o que gera o descontrole financeiro.

Na prática, muitas clínicas operam com os três sistemas ao mesmo tempo, e sem nenhuma integração entre eles. O resultado é retrabalho constante: a recepção lança no agendamento, o médico registra no prontuário, e alguém (geralmente sem formação financeira) tenta reconstruir manualmente, em planilha, o que efetivamente foi faturado e recebido. Cada etapa manual é uma porta aberta para erro humano e informação fragmentada.

Vale reforçar um ponto que costuma clarear a conversa com o cliente: o CFM e a ANS regulam os dados clínicos e a relação com as operadoras, mas quem regula, na prática, a saúde financeira da clínica é o contador. E ele só consegue fazer esse papel bem se tiver, e recomendar, as ferramentas certas.

Os 6 problemas financeiros mais comuns em clínicas (e que a contabilidade vai herdar)

Todos esses problemas nascem na operação da clínica, mas acabam, cedo ou tarde, na mesa do contador, seja como inconsistência na apuração de impostos, seja como pergunta do cliente sobre por que o caixa não fecha com o que foi faturado.

1. Repasses médicos: o calcanhar de aquiles da contabilidade de clínicas

Repasse médico é o valor devido aos profissionais de saúde de acordo com as regras estabelecidas pela clínica. Ele pode ser calculado por percentual ou valor fixo e variar conforme o profissional, o convênio ou o procedimento realizado.

Sem um controle estruturado, erros nesses cálculos podem gerar pagamentos incorretos, divergências com os profissionais e inconsistências entre os atendimentos realizados, os valores recebidos e as despesas registradas pela clínica.

O que o software faz: permite configurar regras de repasse com valores fixos ou percentuais, aplicando condições por profissional, convênio, item faturável, grupo de itens ou data. Com base nos atendimentos registrados, o sistema calcula os valores e disponibiliza um relatório de repasse por profissional.

Para a contabilidade, o ideal é receber esses relatórios periodicamente ou ter um perfil de acesso compatível com a sua função. Dessa forma, é possível acompanhar as informações financeiras necessárias sem precisar acessar dados clínicos dos pacientes.

Imagina substituir diferentes planilhas e cálculos manuais por um relatório com os valores de repasse já organizados?

2. Glosas de convênio: a receita que desaparece sem deixar rastro

Glosa é a recusa total ou parcial do pagamento de um serviço faturado ao convênio. Ela pode acontecer por problemas cadastrais, documentação incompleta, divergências nos códigos, questões técnicas, regras contratuais ou descumprimento dos prazos de envio. O problema é generalizado no setor: estima-se que clínicas percam entre 5% e 15% do faturamento com convênios por glosas não gerenciadas, e no segmento hospitalar privado a glosa inicial gerencial média saltou de cerca de 11,9% em 2023 para próximo de 16% em 2024,  uma tendência que também pressiona clínicas e consultórios menores.

O motivo pelo qual a contabilidade raramente enxerga esse buraco é simples: a clínica normalmente não registra o que foi glosado, só o que foi efetivamente recebido. A receita “perdida” nunca chega a aparecer como problema, ela simplesmente nunca existiu nos registros.

O que o software faz: quando o lote de faturamento foi gerado no próprio sistema, a clínica pode importar o XML de devolução enviado pela operadora, identificar as guias recebidas e glosadas, registrar os motivos das glosas e visualizar os valores totais recebidos e recusados.

O sistema organiza as informações necessárias para que a clínica analise o retorno e faça o recurso junto à operadora quando for cabível.

3. Rentabilidade por procedimento: saber o que dá lucro de verdade

É comum uma clínica atender 200 pacientes por mês e não fazer a menor ideia de quais procedimentos são realmente rentáveis. Isso acontece porque, sem separar as receitas e os custos envolvidos em cada tipo de atendimento, tudo acaba sendo analisado em conjunto, sem distinção. 

O impacto é silencioso e cumulativo: a clínica pode estar subsidiando, mês após mês, procedimentos deficitários sem nunca perceber, porque o resultado agregado ainda “fecha no azul” às custas de outros procedimentos mais rentáveis.

O que o software faz: disponibiliza relatórios com informações sobre procedimentos, profissionais, convênios, planos e valores. No módulo financeiro, também é possível categorizar receitas e despesas e organizar os lançamentos por centros de custo. Esses dados ajudam o gestor e o contador a analisar os resultados financeiros da clínica com mais clareza. 

4. Inadimplência de pacientes particulares

Os dados do setor variam bastante conforme a política de cobrança: segundo a Associação Brasileira de Clínicas e Consultórios Médicos (ABCCM), clínicas que cobram no ato da consulta têm inadimplência abaixo de 1%, enquanto as que cobram depois do atendimento veem esse número subir para a faixa de 8% a 12%. No setor odontológico, a média nacional de inadimplência gira em torno de 6,7%.

Sem sistema, a cobrança costuma ser manual, feita por telefone ou WhatsApp de forma pouco padronizada, constrangedora para a equipe e pouco eficiente na prática.

O impacto para o contador é direto: receita que foi reconhecida contabilmente mas nunca entra de fato no caixa distorce todo o planejamento tributário e financeiro do cliente.

O que o software faz: permite acompanhar as contas a receber, identificar valores em aberto ou já pagos e registrar as respectivas quitações.

5. Emissão de NFS-e e obrigações acessórias

Esse é um problema bem específico do setor de saúde: no mesmo mês, a mesma clínica emite nota fiscal para o plano de saúde (pessoa jurídica) e para o paciente particular (pessoa física), muitas vezes com regimes tributários e códigos de serviço diferentes.

Some a isso o ISS retido na fonte por parte do convênio, um detalhe que, na prática, muitos contadores só descobrem quando já é tarde, ao bater a DCTF e encontrar divergência entre o que foi retido e o que foi declarado.

O que o software faz: permite emitir NFS-e diretamente pelo sistema, com integração à prefeitura responsável ou à NFS-e de padrão nacional, conforme a configuração disponível. A nota pode ser emitida para CPF ou CNPJ a partir do módulo de notas fiscais ou de um pagamento registrado na Tesouraria ou no Contas a Receber. Para realizar a emissão corretamente, a clínica precisa configurar seus dados, o tipo de serviço e a alíquota de ISS.

6.Controle de recebimentos por diferentes meios de pagamento  

A clínica recebe por convênio, muitas vezes em um único depósito que representa diversos procedimentos… cartão, PIX, boleto e dinheiro. Conforme o volume de atendimentos aumenta, controlar manualmente essas diferentes entradas se torna mais complexo e sujeito a erros.

O que o software faz: centraliza as contas a pagar e a receber e permite registrar diferentes meios de quitação, facilitando o acompanhamento dos valores em aberto e recebidos.

O que acontece quando a clínica usa só o prontuário: um cenário real

Para tornar isso concreto, vale um caso hipotético, mas bastante verossímil para quem já atendeu clínica.

Uma clínica de ortopedia. Dois médicos sócios, três convênios, 18 funcionários. Faturamento bruto de R$ 180 mil por mês. O dono usa prontuário eletrônico há três anos,  é organizado, tem todo o histórico clínico dos pacientes em dia, e controla o financeiro num caderno, complementado por uma planilha que a assistente administrativa atualiza “quando dá tempo”.

Quando esse cliente finalmente contrata uma contabilidade especializada, a primeira descoberta é dura: dois dos três convênios estão com o repasse calculado errado havia oito meses. Um dos médicos vinha recebendo a mais, o outro, a menos, e ninguém tinha percebido, porque não havia relatório nenhum cruzando produção com repasse.

A partir daí, o problema se espalha em cascata: o passivo do repasse incorreto nunca foi registrado contabilmente; parte das notas fiscais de serviço foi emitida com o código errado, porque ninguém diferenciava direito o que ia para convênio (PJ) do que ia para particular (PF); e, como consequência direta, o Simples Nacional da clínica vinha sendo calculado sobre uma base de receita que não refletia a realidade.

Nada disso é incompetência do contador anterior. É a consequência natural de um cliente que geria a parte clínica com excelência e a parte financeira com um caderno.

A frase que resume tudo é esta: esse cliente não precisava de um contador melhor. Precisava de um sistema melhor,  e de um contador que soubesse recomendar um.

O que deve ser exigido de um software de gestão para clínicas

Ao avaliar ou recomendar um sistema de gestão para um cliente da saúde, vale usar como critério mínimo:

Regras de repasse configuráveis por profissional, convênio, item faturável, grupo de itens ou data, com valores fixos ou percentuais.

Controle dos valores recebidos e glosados por meio da importação do XML de devolução da operadora, permitindo identificar as guias, registrar os motivos das glosas e visualizar os totais.

Relatórios com informações sobre procedimentos, profissionais, convênios, planos e valores, além da possibilidade de categorizar receitas e despesas e organizar lançamentos por centros de custo.

Controle de contas a receber, com acompanhamento dos valores em aberto e pagos. 

Relatórios financeiros e de faturamento que possam ser exportados e compartilhados com o contador, facilitando a conferência das informações e a continuidade do trabalho contábil.

Como o software de gestão e a contabilidade precisam conversar

O fluxo ideal é direto: software de gestão da clínica gera os dados → exportação estruturada → contabilidade recebe → escrituração automática ou semiautomática.

Quando esse fluxo não existe — o que ainda é a maioria dos casos —, o que acontece na prática é isto: a assistente da clínica exporta (ou digita) uma planilha e manda por WhatsApp; o contador relança tudo manualmente no seu sistema; e a cada etapa manual, o risco de erro se multiplica, junto com as horas de trabalho que ninguém está cobrando de forma explícita.

Os benefícios concretos de fechar essa ponte são mensuráveis: redução real de horas de lançamento manual, menor risco de erro na apuração de impostos (especialmente relevante no Simples Nacional, onde a base de cálculo errada tem efeito cascata), fechamento mensal mais rápido e dados em tempo real para o cliente — o que, na prática, é o que justifica cobrar honorários maiores.

Vale reforçar um ponto estratégico: contadores que oferecem essa consultoria de ecossistema — indicar o software certo para o cliente e garantir que ele converse com a contabilidade — estão entre os que mais crescem em retenção de carteira e em ticket médio no setor de saúde.

Oportunidade para a contabilidade: o setor de saúde está mal atendido

O Brasil tem centenas de milhares de estabelecimentos de saúde cadastrados — o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) do Ministério da Saúde soma cerca de 605 mil estabelecimentos registrados em todo o país, entre públicos, privados, conveniados e filantrópicos, incluindo hospitais, clínicas, consultórios e serviços de apoio diagnóstico. É um universo gigantesco de clínicas, consultórios e operadoras — e a maioria está mal atendida do ponto de vista financeiro.

A maioria dos contadores que atende clínicas hoje entrega o básico: apuração pelo Simples Nacional, folha de pagamento, obrigações acessórias. É serviço correto, mas é commodity — qualquer escritório de contabilidade entrega o mesmo.

O que poucos oferecem é diagnóstico de gestão financeira, recomendação de sistema adequado ao porte e à complexidade da clínica, e integração real de dados entre o software de gestão e a contabilidade. Essa lacuna, hoje, é uma oportunidade de especialização — e especialização, nesse setor, costuma justificar honorários de duas a três vezes acima da média.

Fica a pergunta que vale levar para a próxima reunião com cada cliente da área da saúde: quantos deles você sabe, com certeza, que têm um sistema de gestão que conversa de verdade com a sua contabilidade?

Este conteúdo foi feito em parceria com o Conclínica, sistema de gestão para clínicas, com ampla tecnologia e expertise para automatizar processos e organizar o dia a dia da clínica sem burocracia.

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Autor Convidado

Autor convidado pela Contabilizei

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